Aristides de Sousa Mendes (Quem salva uma vida, salva a Humanidade)

Posted: 17/06/2010 in Comemorações, Histórias, Pessoas

Faz hoje 70 anos que o Dr. Aristides de Sousa Mendes do Amaral e Abranches, cônsul de Portugal em Bordéus, salvou do extermínio Nazi, 30 000 vidas.

“Como é que se chama aquele senhor que, em Bordéus, nos passou os vistos para podermos chegar a este país?”
— “Chama-se herói, filho. Quem faz o que ele fez por nós só pode ter esse nome.”
in “Contos de um mundo com esperança”, José Jorge Letria

Foi na manhã do dia 17 de junho 1940.
Não foi uma decisão tomada descuidadamente.
Aristides tinha passado todo o mês de maio e os primeiros dias de junho a receber centenas de refugiados, expulsos das suas casas pelos bombardeamentos e bilindados das tropas alemães … Já tinha dados alguns vistos a pessoas cuja situação parecia mais dramática, porque eram judeus, ou porque opostos a Hitler. Mas Aristides tinha rejeitado centenas de outros, mas não era homem de recusar um serviço : sentia cada recusa como uma ferida aberta…

As autorizações pedidas, por telegramas, a Lisboa eram todas recusadas. Aristides estava à beira do esgotamento.

Mesmo contra o Governo, Aristides avançou.
Todos eles são seres humanos, e o seu estatuto na vida, religião ou cor, são totalemente irrelevantes para mim. Além disso as cláusulas da Constitução do meu país relativos a casos como o presente dizem que em nenhuma circunstância a religião ou as convicções políticas de um estangeiro… o empedirão de procurar refúgio no territorio português. Eu sou cristão e, como tal, acredito que não devo deixar esses refugiados sucumbir.

“Uma grande parte deles são judeus, muito dos quais, são homens e mulheres com situações proeminentes que, devido à sua posição social, como dirigentes e outros, sentiram nos seus corações dever falar e agir contra as forças da opressão. Fizeram aquilo que em seus corações era o que devia ser feito. Agora querem ir para onde possam continuar a sua luta por aquilo que consideram justo. Sei que a minha mulher concorda com a minha opinião, e estou certo de que os meus filhos compreenderão e não me acusarão, se por dar vistos a todos e a cada um dos refugiados, eu for amanhã destituído do meu cargo por ter agido …[contra] ordens que, em meu entender são vis e injustas. E assim declaro que darei sem encargos, um visto a quem quer que o peça. 0 meu desejo é mais estar com Deus contra o Homem do que com o Homem e contra Deus.”

Casa do Passal vista do miradouro do Cristo Rei de Cabanas de Viriato


Aos filhos presentes deu as suas verdadeiras motivações: “Não sei o que é que o futuro reserva para a vossa mãe, para vocês e para mim mesmo. Materialmente, a vida não será tão boa para nós como tem sido até agora. Contudo, sejamos corajosos e tenhamos em mente que, ao dar a esses refugiados a possibilidade de viverem, teremos mais uma possibilidade de entrar no Reino dos Céus, porque, ao fazê-lo, não faremos mais do que praticar os mandamentos de Deus”

Cristo Rei, virado para a Casa do Passal

Lápide referente ao Cristo Rei de Cabanas de Viriato

A carta que Aristides escreve ao seu advogado, o Dr. Palma Carlos, no dia 17 de Julho 1941 para lhe agradecer, depois do seu último recurso perante o tribunal, de o ter defendido, confirma esta convicção:

“Realmente desobedeci, mas a minha desobediência não me desonra. Não cumpri instruções que significavam, a meu ver, perseguição a verdadeiros náufragos que procuravam a todo o custo salvar-se da sanha hitleriana. Acima dessas instruções, estava para mim a lei de Deus e foi essa que eu procurei cumprir, sem hesitações, nem cobardias de poltrão. O verdadeiro valor da religião cristã, está no amor do próximo, e eu, sendo cristão, não podia fugir do seu império”.

E mais adiante, termina dizendo:

“Deus aceitará o meu sacrifício em desconto dos meus pecados e imperfeições, que são muitos”.

…E todos concordam para dizer que, foi numa alegria exuberante que Aristides distribuiu vistos e passaportes. A sua maneira de fazer é tão extravagante, que Teotónio Pereira, enviado por Lisboa, disse-lhe “Mas você tinha perdido o juízo!..”Pelo contrário, responde Aristides, estou a falar a linguagem da verdade e do bom senso”.

Interior daCasa do Passal


Depois, em acordo com a sua esposa, abriu a porta da chancelaria e gritou para todos os que se aglomeravam em frente ao consulado:

“Daqui em diante, passarei vistos a toda a gente; já não há nacionalidades, nem raças, nem religiões…”

Uma vez tomada esta decisão, Aristides assinou vistos e passaportes aos milhares.
…Sébastien explica: “Os gabinetes do consulado encheram-se de refugiados. Esgotada a reserva de formulários, utilizaram-se folhas brancas, depois pequenos pedaços de papel; o importante era mesmo o selo do consulado e a assinatura de Sousa Mendes. Este, com a ajuda do Rabi, de César e de Pedro Nuno, assinaram documentos durante dias seguidos, desde as 8:00 às 3:00 da manhã”.

Em Lisboa, as autoridades começavam a inquietar-se. Salazar, simultaneamente Primeiro-Ministro e Ministro dos Negócios Estrangeiros, tinha dado aos consulados a ordem de não passarem vistos “às pessoas que chegassem dos países de Leste invadidos pelos alemães, aos suspeitos de actividades políticas contra o nazismo e aos judeus”.

“É necessário evitar a entrada em Portugal de gente indigna”, dizia a circular nº 14, de 11 de Novembro de 1939. Sousa Mendes, baseando-se no artigo da Constituição Portuguesa que negava qualquer forma de descriminação, declarou:

“Se for preciso desobedecer, prefiro que seja a uma ordem dos homens do que a uma ordem de Deus”. Obrigado a regressar a Portugal, Aristides continuou a passar vistos durante a viagem. Em Bayonne, cujo vice-cônsul, legalista, respeitava as ordens do Governo, Aristides retorquiu:
“Ainda sou seu superior” e continuou a passar vistos durante a viagem. “Ele fazia-o de pé, em escadas e mesmo na rua”, conta uma vizinha sua. O exército alemão não demoraria a alcançá-lo, pois já havia chegado a Bordéus; dentro de alguns dias chegaria a Hendaye.
Sousa Mendes sacrificou a sua carreira e foi demitido das suas funções por Salazar, a 4 de Julho, por ter “desonrado Portugal perante as autoridades espanholas e as forças alemãs de ocupação (…) e por ter ousado colocar os seus próprios imperativos de consciência à frente das suas obrigações de funcionário”.

Aristides de Sousa Mendes tinha reflectido durante três dias antes de tomar a decisão precisamente para escolher em consciência. Aqueles que se empenham na via do diálogo quando o ódio do outro é o ponto de referência seguem o mesmo caminho. Remam contra a maré, mas no fundo de si próprios sabem e sentem o valor do que os move: o respeito que todo o ser humano merece. Mesmo que isso signifique ir ao limite do possível…

Interior da Casa do Passal

Encontro, todos em defesa da reconstrução da casa de Aristides Sousa Mendes
Data: Sábado, 19 de Junho de 2010
Hora: 15:00 – 20:00
Local: Cabanas de Viriato, em frente à casa do Passal.

Para assinalar esta data, vamos tentar reunir o maior n.º de pessoas possível para que,simbolicamente, seja entregue o nome das pessoas que lutam por esta causa.
O encontro será em Cabanas de Viriato, em frente à casa, pelas 15 h, conto com a vossa presença.
Peço-vos a vossa autorização para que o vosso nome e fotografia constem numa faixa gigante que será colocada na casa bem como, na lista que será entregue presencialmente à Fundação (vários netos de Aristides estarão presentes)
Muito obrigada pela vossa generosa colaboração e mais uma vez volto a sublinhar que conto conto com a vossa presença.
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Comentários
  1. I think its a disgrace, that, this was allowed to happen to the home of a wonderful man like Aristides de Sousa Mendes, a true ‘HERO’ of the Holocaust. Good luck with the cause. Irish Mary.

  2. I admire Aristides de Sousa Mendes a true HERO of the Holocaust. Good luck with the cause. Thank you.

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