Trabalho realizado na Escola Superior Artística do Porto, no âmbito da residência artística na área de impressão fotográfica, do Curso Artes Visuais e Fotografia.

Impressão em gelatina de prata com viragem a selénio, 34 x 47

Un-natural Cuts


“ É a hora estranha e duvidosa em que as cortinas do céu se fecham, em que as cidades se iluminam.”
Charles Baudelaire in O Pintor da vida moderna

Com as presentes imagens, feitas ao longo dos últimos 3 anos em várias cidades europeias, procurei captar instantes particulares, mas que simultaneamente revelassem traços de vivências humanas comuns a todas elas.
Transportei para estas imagens o indivíduo enquanto ser solitário, como outra face da socialização, e procurei após o fim do dia, altura em que nas ruas das cidades, a vida esmorece e só os simples transeuntes ocasionais ou os rotineiros ocupantes da noite a elas regressam, os vestígios de um mundo com o mundo fora delas.
Com um olhar selectivo e indisciplinado dirigi a minha atenção para os movimentos dos citadinos. De uma forma simples e rotineira, retrato o quotidiano evocando o instantâneo, o fugidio. Na maioria das vezes senti-me como um viajante sem pouso, em constante movimento, sem pertencer, pertencendo – apenas atento ao que me rodeia e me desloca o olhar sem que isso afectasse a neutralidade natural dos movimentos dos indivíduos. Das sequências das suas acções, fiz observações que intencionalmente transparecem num modo ilustrativo em “snapshots” fixados no meu filme.

Sendo a cidade um notável laboratório de interpretações das manifestações locais e singularidades de vivências da contemporaneidade, foi nela que procurei obter imagens capazes de transmitir um certo mistério, fugindo assim a um cenário realista e pitoresco, sendo o grão e o preto e branco propositadamente utilizados para esse fim. Os olhos incidem nos pormenores que não são vistos senão como convites à “visão” daquilo que não se vê, ofuscados pela iluminação forte de certas partes, permanecendo obscuro.
Não tive, nem procurei ter qualquer tipo de afecto, nem foi minha intenção retratar traços ou representações de personalidade ou descrever um determinado lugar, mas sim ir de encontro às interacções dos indivíduos entre si, e claro está, com os espaços.
Nestas imagens há um misto de revelação e de ocultação, realidades e ficções de um percurso pessoal, onde tudo parece provisório e experimental. Uma realidade construída por um jogo de claro-escuro com o qual procuro realçar particularidades, realidades distorcidas, deixando realçar os enigmas do quotidiano, o desconhecido, captando o que se passa quando nada parece passar-se. Do visível ao invisível, do claro ao obscuro e do natural ao não-natural. Não será este o segredo da imagem na sua artificialidade fotográfica?

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