“…, a data fundadora das reivindicações em Canas, referida constantemente nas conversas e celebrada anualmente, é o 2 de Agosto de 1982. Em Março de 1982, o Centro Democrático Social (CDS) tinha apresentado na Assembleia da República um projecto de lei para a criação do concelho de Canas de Senhorim. Tal iniciativa legislativa, institucionalizando politicamente a luta pelo concelho e congregando os diferentes sectores da população de Canas, faria reactivar o processo reivindicativo na localidade. Em Maio desse ano, a Comissão Pró-Criação do Concelho dava uma conferência de imprensa onde apresentava como exigências a criação de um código postal próprio, a paragem dos comboios rápidos, um posto clínico e a subida a discussão na Assembleia da República do projecto apresentado pelo CDS (Jornal de Notícias, 1 de Maio de 1982). Este jornal adoptou, nesta época, uma posição favorável às reivindicações do Movimento de Canas publicando várias notícias que denunciavam as condições deploráveis das infraestruturas na freguesia e enquadrando historicamente a luta pelo concelho (JN, 20 de Maio e 1 de Julho de 1982).

A 30 de Julho de 1982 o projecto de lei do CDS não foi votado na Assembleia da República por falta de quórum. A 2 de Agosto de 1982, a população de Canas concentrou-se junto à estação dos Correios para não deixar sair a correspondência e exigir um código postal próprio. Constatando as pessoas que a correspondência tinha sido retirada antecipadamente, o edifício foi tomado pela população. De forma espontânea decidiram de seguida ir cortar a linha de caminho de ferro. Como salienta o articulista do JN, esta medida tinha um grande impacte devido ao facto de a linha ser internacional e servir como ponto de passagem de muitos emigrantes. Foram retirados mais de 100 metros de carris. Entretanto, a Guarda Nacional Republicana (GNR), aproveitando o facto dos populares estarem concentrados na linha férrea, tinha ocupado o edifício dos CTT. Tocou a sirene e o povo voltou aos Correios. A GNR utilizou a força, resultando 5 feridos entre os populares e alguns guardas feridos sem gravidade. A população retomou o edifício, ficando de piquete. Quando os populares voltaram à linha depararam com a presença do Corpo de Intervenção da GNR. Foi estabelecido um acordo com o comandante da GNR. A polícia não intervinha e as pessoas permaneciam na linha.

No dia seguinte, após reunião com autoridades no Governo Civil de Viseu, o Movimento, em plenário popular, decidiu levantar o bloqueio. Foi também decidido observar, a partir de então, o 2 de Agosto como símbolo do futuro concelho de Canas, contra o feriado municipal de Nelas que se celebra a 24 de Junho (JN, 4 de Agosto de 1982).

A 26 de Setembro de 1982 seria inaugurada uma placa comemorativa do 2 de Agosto. Até à actualidade só por um ano esta data não foi comemorada. A comemoração reveste um carácter popular e solidário, sendo distribuídas sardinhas, vinho e broa gratuitamente a todos os presentes. Como afirma um dos entrevistados, após aquela data:

A única acção do Movimento era o 2 de Agosto. […] Falhou uma vez, um ano […] A 2 de Agosto ficou a ser a festa do povo. A festa do povo. Muita gente tinha, tínhamos aqui, às vezes pessoas que apareciam e diziam: “eh pá”, emigrantes e estrangeiros que apareciam aí, “eh pá, isto é inédito, num país destes haver uma festa em que a gente come, bebe e não paga. Onde é que se viu isto?” […] A gente quotizava-se e as pessoas andavam a pedir (Carlos Henrique, 8 de Agosto de 2000).

Mas, mais importante, esta data ficou a marcar na memória colectiva a capacidade de mobilização da população à volta do ideal de restauração do concelho, projectando a luta a nível nacional. Foi a primeira acção violenta no processo reivindicativo do concelho, mostrando a vontade de resistência local às imposições das autoridades concelhias, distritais e nacionais. A comemoração anual dessa data inscrevia na prática a memória da resistência e da solidariedade.

Outra data politicamente marcante para o Movimento foi ter concorrido em 1986 com uma lista própria às eleições para a junta de freguesia, apresentando-se como único opositor o Partido Socialista (PS). Saíu vencedor o Movimento por uma larga margem. Esta data viria a coincidir com o início da crise da Companhia Portuguesa dos Fornos Eléctricos. A junta de freguesia tomou muitas posições denunciando a situação crítica daquela empresa, e a situação laboral difícil na localidade viria a sobrepor-se na prática às exigências de autonomia administrativa.

Nas restantes partes deste capítulo, concentrar-me-ei nos anos mais recentes da luta pela restauração do concelho de Canas, renovada e intensificada a partir de 1998.”

Vários (1975), Canas de Senhorim. O que somos o que queremos. Canas de Senhorim: Comissão de Moradores.

José Manuel de Oliveira Mendes
Para lêr mais CLIC AQUI.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s