Quando começou o gosto pela escrita?

As minhas primeiras memórias envolvem livros, desenhos e criações de histórias. Aprendi a ler em casa, antes de ter idade para ir para a escola e, nessa altura, já fazia bandas desenhadas e inventava histórias. Quando entrei para a primária já sabia ler e escrever. Cresci, pois, rodeado de livros e ler e escrever eram as minhas brincadeiras, por isso sempre tive consciência de que o meu caminho ia enveredar pela escrita e pela arte. E enveredou. Aliás, sempre trabalhei bastante para isso.

O que faz para além da escrita?

Somente actividades relacionadas com a escrita, com as letras.

Por norma, quanto tempo leva a escrever um livro?

Depende do livro. Desde que tenho a ideia, até passar pelo período de investigação e recolha de informação, pela planificação e estruturação do romance, mais o tempo necessário para o dactilografar, posso levar cerca de um ano, em média. Mas a fase de dactilografar é rápida, porque só me sento ao computador para escrever quando tenho o romance todo formado na cabeça, todo estruturado no papel, e, nesse sentido, essa fase é rápida. Posso demorar cerca de seis meses a dactilografar um romance.

História, Ciência, Oculto e Bestiário, que peso têm estas quatro palavras no seu mundo?

Bastante. São os meus temas favoritos. Estudo e investigo essas áreas com rigor, desde que me conheço. Em essência, neste momento, não leio ficção: todas as minhas leituras são de divulgação científica, história, esoterismo, mitologia.

Tem um autor favorito? Qual a sua principal fonte de inspiração?

Não penso em termos de autores preferidos, sinceramente. Existem alguns escritores de que gosto muito e leio tudo o que eles escrevem, independentemente do que seja, porque sei que vou gostar da voz deles, como o Thomas Pynchon ou o Alexander Theroux, que, para mim, é um dos melhores, se não o melhor, escritor vivo. De maneira geral, há bastante tempo que deixei de ler ficção, porque não tenho tempo para ler todos os livros que vão saindo e, com efeito, tenho de fazer escolhas cada vez mais criteriosas. Daí que a maioria das minhas leituras seja de não-ficção, já há alguns anos.

Tem 13 livros publicados, qual o balanço que faz desde o primeiro até ao mais recente?

Acho que sempre escrevi livros inteligentes e desafiantes. Acho que nunca escrevi um livro que se tenha deixado datar ou envelhecer mal e isso é muito bom. Iniciei a minha carreira em 2000, logo já cá ando há bastante tempo. Tenho visto muitas mudanças na área da cultura, na área da literatura, mas, apesar dessas mudanças todas, sempre consegui manter-me íntegro e fiel à minha visão autoral, publicando, em média, sempre um novo livro por ano. Os meus livros são complexos e eu nunca abdiquei dessa complexidade para me tornar mais comercial. Pelo contrário, nos últimos anos a minha obra tornou-se ainda mais complexa e, felizmente, ainda mais popular junto dos leitores; o que significa que há muito mais gente culta e inteligente do que às vezes se possa pensar e isso é uma felicidade enorme.

De todos os livros que escreveu, qual aquele que mais prazer lhe deu em escrever?

Ao escrevê-los, todos dão igual prazer, mas depois… De maneira geral, desligo-me dos livros muito depressa: acabo de escrever um e começo logo a pensar em outro, daí que me seja, por vezes, difícil falar de um livro que tenha escrito há mais tempo, porque se encontra já muito distante na minha cabeça. Mas, até agora, aquele de que mais gosto é «Batalha», porque encerra de uma forma muito elegante as minhas premissas autorais, como ter uma história complexa, com diversos níveis de entendimento, escrita com uma linguagem rica e luxuriante e a presença de uma mensagem optimista. Acho que todos os meus livros são optimistas: no mínimo, possuem um optimismo “racional”, se é que isso faz algum sentido. Também gosto muito de «Lisboa Triunfante», porque acho que ao escrevê-lo cheguei a tocar mesmo em algo misterioso.

Num momento de austeridade, as verbas para a cultura são cada vez mais escassas, vai sendo difícil editar obras?

Não, porque o mercado do livro, em grande medida, não vive de apoios institucionais de espécie alguma. As editoras têm os seus próprios capitais e trabalham com essas bitolas, por isso as afectações do mercado do livro chegam pela parte das vendas, se são poucas, se são muitas… Mas já antes da crise, o mercado do livro estava “em crise”, uma “crise” endémica que fez com que o mercado do livro se transformasse num mercado rotativo, como o das revistas dos quiosques, o que é uma estupidez. Cada vez se edita mais, mas o tempo de permanência dos livros nas livrarias cada vez é menor: em média noventa dias. Em média, sublinho, porque existem muitos “mercados do livro” dentro do mercado do livro. Acho que vai ficar melhor, sinceramente. Anda-se a editar demasiadas coisas más, muito depressa, e isso é sintoma de que estamos a chegar ao final de um ciclo. Não se pode continuar a tratar os livros como lixo, como se tem feito até agora, editando coisas que não têm pés nem cabeça e que só são livros na aparência, porque, na verdade, o público não-especializado não sustentará isso durante muito mais tempo, porque aqueles que compram maus livros, deixarão de comprá-los assim que começarem a empobrecer ainda mais com a conjuntura actual. Já se sabe que em situações de carestia sacrifica-se aquilo que importa menos e, com efeito, para a maioria dos leitores não-especializados, que ainda vão comprando o lixo comercial, os livros valem pouquíssimo: compram-nos enquanto podem, quando lhes sobra dinheiro para isso. Mas essa situação vai acabar, como é óbvio. Por isso, a partir daqui, só poderá melhorar, no que diz respeito ao prestígio do livro e às escolhas editoriais, pelo menos. Vão vender-se menos títulos, mas vão vender-se títulos melhores. É o tal optimismo “racional” de que falava há pouco.

Julga que os autores portugueses estão a ser devidamente valorizados?

Por defeito profissional, não sigo com atenção as carreiras dos escritores portugueses, nem dos estrangeiros, para responder com clareza a essa pergunta. Estou sempre muito concentrado no meu próprio trabalho e o resto passa-me ao lado. Aliás, por feitio sou bastante eremita e passo todo o meu tempo em casa a ler e a escrever. Só vejo o Sol, entre aspas, quando vou à Feira do Livro e vejo, de facto, o que se anda a passar. Mas “falando de borla”, como se costuma dizer, acho que sim: acho que os autores portugueses estarão a ser devidamente valorizados. Aliás, ao ponto a que a cultura chegou, e que se relaciona com a resposta anterior, desde que se tenha leitores já se é valorizado o suficiente.

Gostou desta apresentação em Canas de Senhorim?

Gostei. As pessoas são simpáticas e inteligentes, fui bem recebido, com entusiasmo e interesse. Por isso, sim, gostei bastante.

Apesar do livro Compêndio de Segredos Sombrios e factos Arrepiantes ser o seu ultimo trabalho, já tem outra obra em mente?

Tenho várias obras em mente, todas bastante diferentes. A partir de 1 de Setembro sairá para as lojas o meu novo CD de ‘spoken word’, intitulado «Os Anormais: Necropsia De Um Cosmos Olisiponense», com texto e voz meus e música de Charles Sangnoir, músico e compositor de La Chanson Noire. Consiste num trabalho erudito sobre os indivíduos excêntricos e deformados que viveram em Lisboa, ao longo dos séculos, por isso quem for à FNAC, por exemplo, na primeira semana de Setembro já o deverá encontrar. Para o ano irá ser editada uma banda desenhada escrita por mim e desenhada por Pedro Serpa, intitulada «Palmas Para o Esquilo»: uma história inteligente sobre loucura e criatividade. E também será editado um novo romance, que já tem título, mas que eu ainda não vou revelar.

Espera voltar a apresentar em Canas de Senhorim uma próxima obra?

Claro, até porque espero ficar uns dias adicionais para olhar a vila e imediações com olhos de ver. Vi, de relance, algumas coisas muito interessantes, cortesia de uma visita guiada que me fizeram no dia da apresentação, e fiquei com vontade de ver mais e com mais rigor.

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Comentários
  1. rudynalva diz:

    DAVID!
    Gostei muito de poder conhecer um pouco mais sobre você e seu trabalho, parabéns e sucesso!

    “A alegria compartilhada é uma alegria dobrada.” (John Ray )
    UMA SEMANA CHEIA DE AMOR NO CORAÇÃO!
    Blogueiras Unidas 1275!
    Luz e paz!
    Cheirinhos
    Rudy

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