Crónicas:O CANTINHO DA DIÁSPORA COM MÁRIO MOURAZ

Posted: 26/09/2012 in Canas de Senhorim, Diáspora, Histórias, Pessoas
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O Pós Irão – reflexões de um país deixado ao preconceito

De volta a Portugal, revejo tudo o que vivi nos últimos cinco meses que passei no Irão. São carradas de fotografias, pequenas notas, bilhetes, presentes, recordações que me trazem à memória um dos melhores momentos da minha vida. Saudades da família já haviam muitas, mas ainda assim custou partir, ainda que o sorriso à saída demonstrasse o contrário. Foram muitos momentos intensamente vividos e muitos laços com os que lá ficaram, bons amigos.
Se tivesse que resumir a minha estada naquele país a uma só palavra eu diria ‘inesquecível’, para o bom e para o mau, mas estaria a ser desleal. Há muito que dizer sobre um país que em tempos fez parte do maior império do mundo e que vive há mais de trinta anos sobre uma ditadura teocrática disfarçada, prejudicada pela localização geográfica e pela ganância dos senhores do petróleo. É um país maravilhoso, de pessoas bondosas, lindíssimo, dono e senhor de uma cultura riquíssima, exótico, ao mesmo tempo encantador e terrível.
Os meus dias eram longos e cansativos, passados entre o escritório e mil encontros com as mais diversas pessoas desde Embaixadores, a homens de negócio, viajantes, Couchsurfers, jogos de frisbee, amigos, artistas de rua, defensores dos direitos humanos, visionários, futuros líderes, e uns quantos outros artistas do subsolo. Subsolo sim, pois no Irão infelizmente há um conjunto de regras sem parâmetros exactos que regulam o dia-a-dia da sociedade de forma cruel e cega, tal como a música designada ‘ocidental’ (tudo o que seja hiphop, rock, pop, metal, alternativo e outras) que é proibida de ser tocada. Assim como é proibido participar em desportos de grupo que envolvam mulheres e homens na rua (como o frisbee), as redes sociais, bares ou álcool, namorar, andar de calções, falar de política ou religião em público, estar em grandes grupos, e uma série de outras restrições que me controlavam impiedosamente. Quanto às mulheres nem se fala. Uma mulher “exemplar” deverá cobrir todo o cabelo, anda de túnicas por baixo do joelho, escolhe cores escuras e largas, não guia uma mota (é proibido mesmo!), não fuma, etc. A melhor parte guardava-a para os fins-de-semana, que eram geralmente passados ou na montanha ou a viajar pelo país. Ah, esqueci-me de incluir a dança no meu programa semanal, mas foi no Irão que me iniciei como professor de Salsa!
O choque cultural aconteceu de imediato. Andei umas poucas semanas iludido a dizer aos amigos que não tinha ficado afectado por aquelas diferenças e desigualdades que via e sofria, mas na verdade andava constantemente resmungão e crítico. Acabou por me passar e desfrutei do meu tempo da melhor forma possível. Ainda redigi as primeiras páginas de um grande plano revolucionário… que foi de pronto por água abaixo após uma conversa sensata e precavida, e retomei seriamente o projecto que oficialmente me tinha levado ao Irão, fazer consultoria em projectos de desenvolvimento turísticos.
Em cinco meses dei a volta ao que antigamente foi o grande Reino da Pérsia. Passei pela ainda remanescente rota da seda, do deserto às florestas quase tropicais e praias do Mar Cáspio, dos lagos salgados ao cume do Damavand, a mais alta montanha do Médio Oriente. Visitei aldeias escavadas na montanha, cidades fortemente religiosas, caves de gelo, fiz rafting onde pensei que me afogava… vivi intensamente e tal como gosto, rodeado de pessoas, conhecidos e desconhecidos. Estava apaixonado! O Irão é um país lindíssimo e eu não queria parar de descobri-lo… tanto que ainda ficou por lá mantido em segredo. Certezas só de que um dia regressarei, principalmente pelos amigos. Infortúnio o deles que não podem deixar o país sem que antes cumpram um intensivo programa militar que dura aproximadamente vinte meses, isto os rapazes. As raparigas, embora seja teoricamente mais fácil pedir o visto de saída do Irão, não o conseguem porém com facilidade. Só me resta ter que visitá-los. Brincava em seriedade que seria o primeiro a regressar ao Irão caso uma impossível revolução social eclodisse para dar uma aula de Salsa ao ar livre para todos, pôr aqueles preguiçosos a mexer, no parque Laleh, o maior parque no centro de Teerão.
Os últimos tempos em Teerão começaram a desmotivar-me. Com o aproximar de eleições presidenciais, o clima social ficou mais tenso e a polícia investia com regularidade na punição de mulheres que não cumpriam o hejab (forma de vestir Islâmica), assim como execuções públicas no sul da cidade. Uma grande amiga chegou inclusive a ser presa e depois libertada. Achei que a minha presença no Irão já tinha criado o impacto que queria e que era tempo de partir. Arrumei as malas, disse adeus aos meus seis companheiros do pequeno quarto da residência, incluindo um filho de um Mullah que às tantas me quis converter ao Islamismo e que por sorte era o meu companheiro de beliche, abracei os amigos, arranjei um parceiro de negócios e parti. Por agora ainda não sei qual será a minha próxima paragem, apenas sei que não posso parar. Vi e vivi demasiado para passar despercebido aos problemas do mundo. Concerteza verei muitos mais mas não sou de ficar sentado a ver as coisas acontecerem. Um dia olharei para trás e sentir-me-ei melhor por ter tentado. Se depender de mim, esperar-me-á a África.
Um grande abraço e boas viagens.
Mário Mouraz
(Travel with Mario)

Comentários
  1. maria jose mouraz diz:

    Desde que não deixes que o mundo te mude a ti.
    Boa viagem
    M

    • Gostei da tua breve mas intensa reportagem!
      E depois também gostei do comentário que foi feito a seguir!
      LM

      • Obrigado Luísa.

        O Mário foi o único que se comprometeu e cumpriu, este espaço foi aberto a outros Canenses espalhados pelo mundo que tenham histórias para contar e partilhar. Em breve poderão aparecer outros, neste momento há dois amigos que “roeram a corda”, espero em breve ter mais a publicarem crónicas da vida que levam fora de portas ou das lembranças da terra, histórias que todos gostamos de ler e saber!

      • Pedro,
        é excelente e de louvar a tua iniciativa.
        Como sabes eu acompanho o que escreves e fotografas!
        Obrigado pela partilha!
        E continua sempre!
        Um abraço,
        LM

  2. […] algum tempo que vou seguindo as viagens do Mário Mouraz e por algumas fotografias que ele partilhou aqui no meu blogue, vai por certo ser uma grande exposição. por isso não percam, apareçam e Travel with […]

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